É fácil entender a cybercracia. Muita gente já matou a charada. Mas para ficar mais didático vamos tentar descrevê-la. Para isso, vamos criar um país imaginário, que pode se chamar Brasil. Acho esse um nome muito bom para um país imaginário, mas o leitor pode usar outro, se quiser. Na verdade, o nome não vem ao caso.
Nesse país, criamos uma nova “httpx”, ou seja, uma internet exclusiva que, assim como a HTTPS, usada pelos bancos é muito mais segura e eficaz. Se funciona bem para os bancos, pode servir para gerir um sistema político. Bom, podem acontecer falhas, mas elas já acontecem nos sistemas atuais, como mostrou a primeira eleição do Bush, e outras tantas, em tantos lugares – até aqui, onde temos urnas eletrônicas... quem diria!
Mas, enfim, ela é segura, muito segura. Os melhores antivírus do mundo trabalham para nós. Ou – já que estamos imaginando – ou fomos nós mesmos que criamos os melhores sistemas de segurança para esta nova rede, pois contratamos os (nossos) melhores hackers do mundo para isso. Não importa. O que importa é que é comprovadamente segura.
Nessa poderosa rede estão cadastrados todos os cidadãos do país. Ao nascer todos recebem uma espécie de certificação digital que inclui dados biométricos, impossível de ser replicada ou transferida ou usada por outra pessoa. Só a pessoa pode usar este documento digital que a identifica. Uma espécie de CPF, só que mais sofisticada, que pode até incluir um chip inserido no pulso do braço esquerdo, se assim o preferirem os defensores das teorias da conspiração. Em síntese, é o estado da arte do que se discute atualmente para ser o “Documento Único do Cidadão”, que permite a cada um fazer login seguro nessa nova rede, exclusivamente para participar do processo político.
Pois bem: temos a rede segura, e toda a população cadastrada nela. Eles são os usuários. O próximo passo é convidarmos os caras que criaram o Facebook, o Orkut e o Twiter (e outros que não lembro agora) para que eles implantem nessa nossa rede uma espécie de Facebook ou Orkut só para nós. Vamos chamar esse novo facebook de “Sistema de Governo Virtual” que pode ter mais ou menos a seguinte estrutura:
Como aqui nós optamos pelo presidencialismo, vamos adotar uma base de dados contendo diversos cargos formando uma espécie de árvore que tem um Presidente e o Congresso Nacional, uma entidade específica onde há espaço para diversos Congressistas. Há ramificações específicas, como um Ministério ligado ao Presidente, e Gabinetes, ligados aos congressistas, mas não vamos detalhar seu funcionamento agora. A mesma estrutura se repete para cada Estado da Federação, com um Governador e uma Assembléia cheia de Deputados Estaduais. E, da mesma forma, para cada Município, com um Prefeito e uma Câmara com diversos Vereadores.
Tudo igual?
Percebem? O mais divertido é que aparentemente nada muda! Nesse sistema, também, cada cargo público (vereador, prefeito, deputado, governador, congressista e presidente) poderá ser ocupado por um representante do povo que se candidatar e receber a maior quantidade de votos entre todos que tiverem se candidatado. Podemos ter eleições periódicas para renovar os ocupantes dos cargos, como temos agora, com direito à reeleição até duas vezes, nos cargos executivos. Como agora.
Mas o que muda? É o sistema de legitimação em tempo real. Voltemos ao “facebook”: pra começar, todos foram eleitos nessa internet especial “httpx”, mais ou menos da mesma forma como escolhemos amigos no Orkut ou Facebook. Imagine que um prefeito foi eleito com 300 mil votos, e seu principal opositor recebeu 280 mil votos e ficou em segundo lugar. Então, como no facebook, este prefeito tem 300 mil “amigos” afiliados à sua pessoa, com indicação suficiente para ocupar este cargo (mais de 50% dos votos válidos de sua cidade). Contudo, seu opositor continua tendo outros 280 mil afiliados que o querem no mesmo cargo – a qualquer momento.
Mas se por “azar”, após algum tempo de gestão, o prefeito for desmascarado por um escândalo de má gestão do dinheiro do povo em obras superfaturadas, as pessoas que o elegeram podem desistir de serem seus “amigos”, ou seja, cancelar, retirar a procuração que lhe deram para representá-los, e passar a apoiar seu opositor. Para fazer isto, bastará ao eleitor acessar a internet, logar o Sistema de Governo Virtual usando Documento Único do Cidadão, e dar alguns cliques para retirar o apoio ao prefeito, removendo-o de sua rede pessoal de candidatos eleitos.
Outros removerão seu apoio ao prefeito corrupto sem apoiar o opositor ou nenhum outro candidato. Apenas mostrarão que o reprovam. No final, como resultado das notícias na imprensa, da mobilização de internautas, cerca de 15 mil cidadãos passaram a apoiar o opositor e outros 15 mil removeram seu apoio sem afiliarem a outro imediatamente. Com isto, o prefeito que tinha 300 mil “amigos” afiliados, passou a ter apenas 270 mil. Como resultado dessa conta, ele poderá ser obrigado a abrir mão do cargo, em razão do escândalo político, e passá-lo para seu opositor, que agora tem respaldo de 295 mil cidadãos para assumir a prefeitura.
Aconteceu então um impeachment popular em tempo real, ocorrido a partir da mobilização dos eleitores que acessaram a rede virtual e modificaram seu voto, retiraram seu apoio. Deram chance a outro.
O mesmo pode acontecer com qualquer vereador, deputado, governador, congressista ou presidente. Se o cara cair em desgraça, perde a popularidade e com ela vai junto a legitimação de seu cargo e, se a coisa for braba, perde o cargo a qualquer hora! Tudo em tempo real. Ou seja, não precisamos esperar o fim dos mandatos para mostrar nossa indignação e nosso arrependimento aos políticos eleitos. E não apenas mostrar, mas agir, retirando sua sustentação: a legitimidade!
Se eu fosse um político malandro, não gostaria que um sistema desses fosse adotado! E mesmo sendo um político honrado, ia fazer de tudo para agradar meus eleitores e deixar bem claro para cada deles o recado: “quero morrer seu amigo”.
- Bem, é só o começo. Teremos mais diversão pela frente...
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