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Parlamento virtual?

Até aqui, alguém poderá dizer: “mas essas mudanças não caracterizam um novo sistema político, talvez apenas um novo sistema eleitoral”. Correto, mas isto é só uma parte, escolhida para descrever de forma simplificada o princípio da nova forma de participação da sociedade na formulação de seu próprio destino. Não será possível acontecer uma mudança como esta sem que ocorram muitas outras ao mesmo tempo, em toda a cadeia sociopolítica de nosso “país imaginário”.

Pra começar, esse novo sistema torna a legitimação do poder uma atividade interativa, por ser em tempo real, ou seja, mudando tudo o tempo todo, a qualquer momento, sempre que necessário. À primeira vista, isto pode até sugerir que a coisa vai virar zona, com o excessivo troca-troca de poder. Mas com a prática, em pouco tempo serão definidas as melhores práticas.

Se eu, eleitor, não gostar do voto do congressista em um determinado assunto que estiver em debate no Congresso, como a adesão de meu país a algum tratado internacional de proteção ambiental, ou a construção de uma usina nuclear às margens do rio Amazonas, vou remover minha aprovação, meu voto dado a esse congressista nas últimas eleições, porque entendo que ele não está sendo coerente com minha expectativa, está me traindo.

E em poucos segundos twitarei meus “seguidores” pedindo que façam o mesmo e também twitem seus seguidores, e assim por diante. Então este político poderá perder o mandato em uma semana ou mesmo em algumas horas ou minutos, como consequência da perda de legitimação (votos). Não precisamos mais esperar até a próxima eleição! Outro candidato com quantidade equivalente de votos – ou logo abaixo, na lista de espera, assumirá seu lugar. Simples assim. “E a fila anda”.

Isto por si, já torna tudo muito mais dinâmico e transparente. Vamos acoplar a essa idéia a existência de uma pauta pública, na rede, mostrando tudo, cada um de todos os projetos em debate no Congresso, acompanhados da lista dos políticos que votam a favor, contra, ou se abstém. Tudo em hipertexto,fácil de clicar e saber mais detalhes. Aqui, quando digo Congresso significa sempre que o mesmo modelo vale também para outras esferas (estaduais e municipais).

Tecnicamente é tudo muito fácil: bastam bons programadores, hardware adequado e um sistema de backup apropriado. Não é preciso gastar cimento nem cortar árvores.

Mas o coro dos céticos dirá “a internet ainda é muito restrita”. Realmente, ainda é. Mas se hoje, 2010, com toda essa restrição, houvesse esse tipo de vigilância on line, e um meio de “cutucar” os políticos via rede, certamente suas atitudes mudariam drasticamente. E já tivemos diversos exemplos disso em movimentos recentes como “O Paraná que queremos” que angariou via internet milhares de adesões na luta contra a corrupção na Assembléia Legislativa do Paraná. Pressionados, os parlamentares foram obrigados a aprovar medidas de maior transparência e vigilância nos gastos com contratações de pessoal por eles mesmos. Também é notável o crescente uso de ferramentas como facebook e twitter pelos candidatos a cargos públicos, atualmente. Em resumo, não há como negar a chegada para ficar da internet na vida política e social.

Atualmente já acontece uma evolução notável que conduz a essa nova ordem “virtual”, que são as ONGs em diversas partes do mundo incumbindo-se de fiscalizar instituições e órgãos públicos e até empresas privadas sob diversos aspectos. O mundo está ficando muito mais transparente, e isso é irreversível. Os donos do poder terão cada vez maior dificuldade para agir “por trás dos bastidores”, apesar de sabermos que é praticamente impossível acabar com isso completamente.

Para evitar manipulações, vamos automatizar processos e também procedimentos antes entregues a decisões humanas em cargos “de confiança”, impregnados de conotações políticas tendenciosas, cercados por interesses econômicos dos poderosos e fragilizados por necessidades e ambições pessoais no mínimo questionáveis.

E, levando esta reflexão ao extremo, podemos questionar se num futuro breve poderemos prescindir do espaço físico do Congresso Nacional e passar a usar um "Congresso Virtual" para a discussão e aprovação da maior parte dos assuntos, deixando as reuniões in loco no prédio do Congresso Nacional para apenas alguns assuntos em que o embate pessoal seja efetivamente imprescindível. E essas reuniões serão acompanhadas por todos, pela rede.

Mas como definir quais assuntos da pauta terão de ser discutidos pessoalmente, pelos congressistas? Como definir com quantos votos "cassados" um político perde o mandato? E quem decide qual candidato não eleito assumirá seu lugar?

A resposta para esta e muitas outras perguntas sobre a Cybercracia pode ser encontrada nos códigos-fonte de programas de computador. Economizando-se papel, espaço físico e funcionários públicos, entre outros recursos, podem-se automatizar tarefas e procedimentos por meio da tecnologia, usando ferramentas “mágicas” como algoritmos, capazes de ser altamente eficazes e extremamente econômicos e rápidos. Para isso, é preciso não temermos nossa própria ignorância, mas vencê-la.

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